Memórias de um Vereador

20 Março 2017 12:15:00

Sessões legislativas muito produtivas e com um respeito à ética invejável

Carlos Homem

   Em tempos que se emboloram nos escaninhos da memória, fui vereador. Éramos sete. Seis do partido político então conhecido por Arena, e apenas eu do MDB, naquela época apelidado de "Manda Brasa". Por ser o único da oposição, eu era indicado por unanimidade da minha bancada, o líder. Os seis da Arena, no entanto, viviam em conflitos porque três vinham do extinto PSD e três da também falecida UDN. Siglas todas que a pseudo Revolução de 64 havia passado a borracha sobre elas. Traziam o ranço de disputas eleitorais raivosas e de feridas políticas incicatrizáveis. Só o tempo sepultou aquilo. Mas, como o interesse dos políticos sempre esteve acima de tudo, a Arena uniu aquelas duas correntes inimigas. Um casamento feito na polícia! A Câmara de Vereadores tinha sua sede e funcionava no andar superior do velho prédio que hoje é o Museu Histórico do Município. Para respeitar a memória dos personagens omito seus nomes, já que ambos falecidos. Um do PSD e outro da UDN. Os dois chegados numa pinga e no porte de armas de fogo. Iam armados nas sessões. As discussões nem bem começavam e as agressões verbais, como as ameaças de morte se faziam costumeiras. Um dia, numa das sessões, estavam àquelas criaturas embriagadas, babando sobre as mesas, trocando impropérios de toda espécie e qualidade. Foi num momento daqueles que observei uma garrafa de álcool deixada pela mulher da faxina sobre a soleira da janela que ficava localizada atrás da mesa do Dr. Moacir Granemann, nosso Presidente. Ela usava aquele líquido nas suas tarefas. Não resisti à tentação de fazer uma pirraça e pedi a palavra. O Presidente de pronto me atendeu. Daí, impostei bem a voz e disse: "Senhor Presidente, requeiro a V. Ex.ª que mande retirar deste recinto aquela garrafa porque o cheiro do álcool está insuportável." Quase apanhei! Os dois pinguços viraram no que é aquilo. Revólveres reluziram sobre as mesas. Palavrões jorraram aos borbotões. Nem minha mãe foi poupada! Um deles, que sóbrio era um verdadeiro gentleman, quando bebia nem o diabo lidava. Encarnava um espírito maligno! Disse-me, aos berros, lembro muito bem, que o álcool serviria para botar fogo no meu rabo! Hoje, permitindo-me o tom jocoso, digo que foram sessões legislativas muito produtivas e com um respeito à ética invejável! Mas não tenho saudades! 


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