A ausência mandou dizer

16 Março 2017 10:40:36

Natália Sartor de Moraes

Me convenci de que óculos escuros servem a outra finalidade além de proteger nossos olhos do sol: ocultar as ausências que trazemos no olhar. Como cronista, busco os dicotômicos eventos cotidianos; como humana, procuro ausências, ando à cata de faltas que possam se aliar às minhas, para que eu não me sinta a única no universo a experimentá-las, mas apenas para que não me julgue maleficamente privilegiada, afinal, é ilusão não se resignar com a solidão. 

Somos sozinhos. Temos vazios que, ingenuamente, imputamos somente persistentes, mas que na verdade são eternos, inquebráveis e zombam de nossas tentativas de supri-los. Não nego que incomodo e que, sim, tenho a mania irritante de olhar sempre nos olhos, direta e perturbadoramente, sou uma caçadora de ausências, quero saber das suas perdas e preciso, ainda mais, entender se você as aceita ou tenta acobertá-las.

Um camelô pode ajudá-lo na tarefa de mascará-las: compre dele óculos escuros e os coloque quando conversar comigo porque, se não o fizer, meu olhar vai devassar o seu, como quem pressente a existência de um cristal sujo em terreno árido.

Mas você pode fazer o mesmo comigo, é claro. Pode praticar o esquadrinhamento completo nesses dois regatos escuros de decepções. Devolva na mesma moeda gasta da indiscrição e saboreará um pouco do ofício do cronista. Adianto que vai descobrir que eu não brigo com as faltas, aprendi a conviver com elas. Às vezes até peço que a ausência se sente e faço um chá. Fique à vontade, a casa é sua. Entre goles de aceitação, regados com o leite azedo da apatia, me reconheço a mais fraca entre nós para discutir, então me calo. Argumentos literários não vão convencê-la, tampouco o irão fazer os discursos jurídicos. Assim, estou sem armas para combater a ausência. Me junto a ela, nos aliamos e ficamos embriagadas com o líquido amargo da impotência.

Me acostumei com a ausência, é fato. E temos tantos desgostos em comum que, ao longo do tempo, nos tornamos excelentes amigas, embora seja impossível me sentir totalmente à vontade na presença intimidadora dela. Dia desses, ela, sentada sobre o meu tórax, me contou que na vida dois conjuntos de faltas nos acompanham: as que cometemos e as que sentimos. Eu disse que sabia. Não fui modesta e ainda, antipática, comentei que essas faltas são mãe e filha: as que cometemos geram as que sentimos. Diante desse meu rompante de sabedoria postiça, a ausência me olhou acusadoramente, como se temesse que eu andasse conversando com alguém tão destruidor quanto ela. A ausência tem ciúmes de mim. Porém, viu-se obrigada a admitir que era verdade a minha arrogante dedução: cometemos excessivas faltas e, depois, as sentimos duplicadas na solidão do peito, ouvimos o barulho de suas garras mortíferas rasgando nossas carnes enquanto tentamos dormir e provamos de seus dedos secos e gelados chacoalhando-nos os ossos durante os pesadelos.

A ausência gosta de fazer drama. Tem a mente fértil essa minha parceira. Por isso, sempre me ajuda a escrever. Está do meu lado, intuindo meus pensamentos e deslizando a ambição fria sobre meus dedos.

Obrigada, ausência, por mais um dia de companhia. Esteve aqui ainda há pouco, e me pediu para deixar um recado para vocês: aceitem-na quando ela os visitar, recebam-na com cortesia. Ela gosta de chá de boldo, bem amargo, para combater as angústias do estômago que sofre e faz sofrer; afinal, como a danada me mandou informar: aposentem os óculos escuros, pouco sucesso terão em se esconderem de vocês mesmos, pois todos cometemos muitos erros no afã de preencher vazios impreenchíveis.

                       ***

Queridos leitores, o livro de crônicas de minha autoria, intitulado "A outra beleza" será lançado na Assembleia Legislativa (em Florianópolis) no dia 20/03/2017, às 19h00. Espero vocês lá.



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